Da imensidão, uma mistura diversa de significados. A Barragem de Oiticica, localizada no município de Jucurutu, alcançou uma marca importante na segunda-feira (13). Inaugurado em março do ano passado, o segundo maior reservatório do Rio Grande do Norte atingiu a metade da capacidade de armazenamento, realidade que representa a maior segurança hídrica para a população. O acumulado contabiliza 371.767.111 m³, o equivalente a 50,06% de sua capacidade total, que é de 742.632.840 m³, segundo dados oficiais, um aumento de 4,38% em relação ao volume registrado três dias antes, quando estava com 45,41%.
O avanço da água altera o cenário na região e impacta diretamente a vida de quem morava na antiga comunidade de Barra de Santana, área atingida pelo reservatório. Parte das estruturas já não é mais visível. A igreja ainda aparece, cercada pela água que continua a subir.
Rosário Medeiros viveu na comunidade até 2022, quando deixou a área durante o processo de reassentamento. A mudança acompanha o crescimento do volume da barragem. Segundo ela, a nova realidade reúne perdas e expectativas. “É um misto de sentimentos”, relata. A antiga comunidade, onde construiu a vida, está sendo encoberta. Ao mesmo tempo, a moradora aponta a percepção de que a obra atende a uma demanda histórica da região. “A gente deixou para trás para beneficiar outras famílias que sofrem com a seca”, afirma.
O projeto da barragem foi elaborado há mais de sete décadas pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS). A obra recebeu investimentos superiores a R$ 760 milhões. A estrutura atende 22 municípios e cerca de 294 mil pessoas. “Imagino que quando a barragem vir a sangrar, haverá uma economia local na nossa comunidade bem melhor, porque irá atrair vários visitantes para cá. E também eu digo que quando a barragem estiver sangrando é uma satisfação, é um sentimento de dever cumprido. Que aquele sofrimento todo que vivenciamos durante todo o processo da construção valeu a pena.”, conta Rosário.
Para viabilizar o reservatório, aproximadamente 600 famílias foram removidas. Dessas, cerca de 550 passaram a viver na nova Barra de Santana, construída com infraestrutura urbana planejada. Segundo Rosário, a nova comunidade dispõe de serviços que não existiam antes, como saneamento básico e moradias padronizadas.
Essa mudança de cenário faz despontar um sentimento de tristeza pelo que o local simboliza para quem lá viveu. Contudo, a gratidão e virtude do que a barragem representa também se evidencia. “É um misto de sentimentos, um sentimento de tristeza em ver que a comunidade em que eu nasci, cresci, construí minha família, está sendo coberta pelas águas e ao mesmo tempo um sentimento de gratidão em saber que nós abrimos mão do nosso local de origem, das nossas raízes deixamos para trás para beneficiar tantas famílias da região do Seridó que há tantos anos vem sofrendo com a seca severa.”
Com o aumento contínuo do volume, a barragem avança sobre a área original e redefine o território. A expectativa entre moradores é de que o reservatório continue acumulando água nos próximos meses, influenciado pelo período de chuvas na região
Reprodução: Yuri Rodrigues – TCM
